A retomada da vida sexual pós-parto



O pós-parto é um momento de muitas adaptações físicas, emocionais e relacionais. A escassez de libido pode fazer parte desse quadro associado a diversos fatores que podem influenciar a expressão da sexualidade feminina, como alteração hormonal, mudanças do corpo trazidas pela gravidez, tensões associadas a primeira experiência no papel de mãe e falta de espaço de diálogo com o parceiro. 

A ginecologista Dayana Sandes explica que a perda da libido está relacionada com a diminuição das taxas de estrogênio, hormônio responsável pelo comportamento 'feminino', que age sobre as células, anatomia e comportamento e o aumento da prolactina, que é o hormônio da lactação. “A diminuição de estrogênio causa diminuição da libido e da lubrificação vaginal. As modificações hormonais também podem causar sentimentos depressivos e fadiga, o que diminui o desejo sexual”, afirma.

Além disso, o cansaço das noites mal dormidas por causa da amamentação, choro do bebê e as alterações emocionais envolvidas também podem afetar a relação com o sexo. Para a psicóloga Aline Belém, a libido era diretamente proporcional a quantidade de sono. “Tive minha primeira relação depois que o resguardo terminou, por outro lado eram absolutamente escassas nesses primeiros seis meses por conta do cansaço físico, noites em claro e especialmente por ter optado fazer amamentação exclusiva neste período”, explica. 

A jornalista Priscila Viana, também vivenciou a falta de disposição causada pelas poucas horas de sono e a rotina cansativa. Contudo, o casal tentou novas formas de conhecer o corpo, intensificando a troca de carícias de maneira delicada, pois o corpo feminino após o parto ainda está se recuperando e os órgãos, voltando ao seu tamanho normal. “É tudo muito confuso, pelo menos na primeira experiência de ser mãe. Seu corpo muda, as inseguranças aparecem e você sente como se não pudesse ter o mesmo corpo e a mesma vida sexual de antes. Mas com o tempo percebi que é preciso paciência pra esperar tudo voltar ao ritmo”, fala. 

A chegada do bebê traz inúmeras solicitações e a mãe permanece em um "processo fusional”, ou seja, simbiose com o bebê e suas necessidades pelo menos durante os primeiros dois anos, segundo a psicóloga Silvia Andrade. Essa relação traz uma mistura de sentimentos e sensações produzindo muitas vezes, uma dificuldade de distanciamento deste papel, para voltar a dar espaço para o papel de mulher. A arquiteta e urbanista A.L. conta que a cabeça e o corpo não estão ainda muito adaptados a tanta novidade, informação e apreensões. “A preocupação não era bem o sexo naquele momento de ‘seja bem vinda a maternidade’, foi estranho", diz. 

O apoio entre o casal é importante nesse processo. A auxiliar de cozinha, Ivana Araujo, teve o relacionamento desfeito após o parto. “Desde a gravidez, houve um distanciamento da minha parceira. Ela não sentia interesse, o apetite era só meu. Então, não foi diferente após. Comecei a me enxergar apenas como mãe, até perceber que pra ser feliz, antes de tudo, tinha que estar realizada como mulher”, desabafa. 

É preciso ter paciência, diálogo e compreensão, procurando colocar-se um no lugar do outro. Tentar adequar a rotina dos dois, incluindo outras formas de buscar o prazer, como sexo oral, masturbação e carícias. “Quase todos os casais que conheço entram numa prova de fogo quando o filho nasce, porque um bebê recém-nascido exige muitos cuidados e atenção redobrada, com isso, o relacionamento acaba ficando em segundo plano”, conta Priscila.

A psicóloga Silvia Andrade, indica a tentativa de reservar momentos para os dois, mesmo que pequenos, quando a criança dorme. “No início a tendência é que esse espaço se torne de diálogo e exercício de se colocar no lugar do outro. Posteriormente, esses momentos vão, aos poucos, voltando a estimular os espaços de carinho e exercício da sexualidade”, explica.

Em casos onde o casal não consegue resolver as crises conjugais, o ideal é procurar ajuda com um profissional médico, psicólogo ou sexólogo. Esse acompanhamento pode possibilitar uma nova organização familiar, inserindo os novos papeis, trabalhando a aceitação e compreensão das novas demandas e encontrando harmonia com a rotina vivida antes da gestação. A questão essencial é sempre exercitar o respeito e a colaboração. “De fato, o pós-parto é um convite a um amadurecimento da relação a dois, possibilitando o exercício da aceitação, diálogo constante, divisão de tarefas, abnegação e reposicionamento de papeis”, conclui a psicóloga.

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Ayalla Anjos
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Aracaju, Sergipe